Mostrar mensagens com a etiqueta Inéditos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Inéditos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 20, 2006

Vão Breves Passando

Vão Breves Passando

Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.

terça-feira, julho 04, 2006

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do "carroussel"...

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do "carroussel"...

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do "carroussel"...
Árvores, pedras, montes bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol....

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mão cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mão são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia hoje...

quinta-feira, junho 01, 2006

Minha mulher, a solidão,

Minha mulher, a solidão,

Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é o coração
Ter este bem que não existe!

Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.

Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só - veste de seda-,
E fala só - leque animado.

quinta-feira, maio 18, 2006

Meus dias passam, minha fé também

Meus dias passam, minha fé também.

Meus dias passam, minha fé também.
Já tive céus e estrelas em meu manto.
As grandes horas, se as viveu alguém,
Quando as viveu, perderam já o encanto.

segunda-feira, maio 15, 2006

Ceifeira

Ceifeira

Mas não, é abstrata, é uma ave
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar.

sexta-feira, maio 12, 2006

Velo, na noite em mim,

Velo, na noite em mim,

Velo, na noite em mim,
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.

segunda-feira, maio 08, 2006

Quanta mais alma ande no amplo informe

Quanta mais alma ande no amplo informe

Quanta mais alma ande no amplo informe
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressam, ó Cristo, e dormem
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.

sexta-feira, abril 28, 2006

Meu ruído de alma cala

Meu ruído de alma cala

Meu ruído de alma cala.
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.

Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?

sábado, abril 15, 2006

Mas o hóspede inconvidado

Mas o hóspede inconvidado


Mas o hóspede inconvidado
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é dino.
Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce.

Categoria: soltos

terça-feira, abril 04, 2006

Se eu me sentir sono

Se eu me sentir sono,

Se eu me sentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,

Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,

Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.

Poema publicado em 20 de Abril de 1934.

Categoria: soltos

segunda-feira, abril 03, 2006

O que é a vida e o que é morte

O que é vida e o que é morte

O que é a vida e o que é morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há.

Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui,
Terá de mim próprio o estigma
Da sombra em que eu o vivi.

Categoria: Poemas soltos

sexta-feira, março 03, 2006

Soam vãos, dolorido epicurista

Soam vãos, dolorido epicurista

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria ideia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

Categoria: xrttml